Venezuelano resgata traços originais em imagem sacra da Abadia

Imagem sendo pintada. (Fotos: Vivianne Nunes)

“O trato que a gente dá a essas coisas não é o mesmo que a gente dá para outro objeto. Tem que ter mais respeito e piedade, porque é sacro”

Foi desta forma que o venezuelano Germán Luís Rodriguez Rodríguez, 24 anos, do Santuário Nossa Senhora da Abadia, começou a contar sobre o trabalho que vem desenvolvendo para a composição feita na nova imagem de Nossa Senhora da Abadia que vai abrilhantar ainda mais o altar da igreja e da 21ª Festa com a Cidade de Maria.

O trabalho durou cerca de uma semana e meia e foi muito além das expectativas, pois aconteceu cercado de fé e religiosidade católica, como deve ser. No recinto Casa do Pai, que fica no Santuário, começou toda a preparação para compor a imagem de resina, que mede cerca de 1,20 de altura.

“Padre Paulo [pároco do Santuário] comprou essa imagem com a proposta de eu mexer, mas como sou muito curioso, detalhista, fui procurar os desenhos originais”, contou.

Com alguns registros muito antigos em mãos, Germán começou a observar que a primeira imagem de Nossa Senhora da Abadia que chegou a Campo Grande pelas mãos do mineiro Eliseu Ramos e que entrou na cidade em cima de um carro de boi cumprindo a promessa que fizera, não tem os mesmos traços da imagem atual.

Foi quando ele percebeu que com o passar dos anos, a Virgem da Abadia, foi passando por um processo de recuperação que acabou alterando várias características da imagem.

“Essa que estamos trabalhando não vai ficar igualzinha a outra. Estamos mantendo desenhos e detalhes da imagem original, as flores no manto azul e resgatamos alguns desenhos de como ela está agora na catedral. Estudando descobrimos que ela foi alterada várias vezes e alguns símbolos não tinham sentido teológico. Então, quisemos agregar mais sacralidade”, contou.

Enquanto conversava com a reportagem, extremamente concentrado, Gérman contava sobre a experiência vivenciada naqueles dias em que chegou a preparar os novos símbolos aplicados nas vestes de Maria e todo o processo artístico.

“Fizemos uma união do que já existia, mas a personalizamos de forma que será única no Santuário”, afirmou.

As gravuras nas vestes brancas de Nossa Senhora da Abadia foram divididas em três partes que contemplam a Santíssima Trindade. “Maria que é filha de Deus, mãe do filho Dele e esposa do Espírito Santo. Então trouxemos a
palavra de Deus, a eucaristia que representa o ministério da nossa fé e o símbolo mariano”, explicou. “E ela tem o menino Jesus nos braços, mas não está apenas carregando, ela está com os braços estendidos como quem acolhe nossos pedidos e os leva a Jesus. Ao mesmo tempo é ela quem nos dá Jesus”, completou.

Arte Sacra

Fotos e impressões mostram mudanças feitas com o passar dos anos. (Foto: Vivianne Nunes)

Germán está no Brasil desde de 2019, quando veio para acompanhar a irmã, mas acabou ficando. Na época, segundo seu próprio relato, ele já tinha começado seu processo vocacional e a intenção era adentrar ao seminário, o que de fato aconteceu. Por dois anos ele vivenciou esse período, que foi interrompido mas que será retomado em breve.

O trabalho com artes sacras surgiu ainda na juventude. Criado em ambiente católico, ele conta que a influência da avó, Aura del Carmen Rodriguez e do tio Asiclo Rodríguez, sacristão da igreja onde serviam, foi crucial para o envolvimento em tudo o que é sagrado.

Germán também destaca o nome do artista plástico e amigo, José Gregório Valência, como um dos que influenciaram seu trabalho com a arte sacra. “Eu sempre gostei de arte, gostava de pintar, mexer com gesso e fazer imagem, mas a inspiração veio desse meu amigo que mora na Venezuela”, contou. Germán conta que nunca frequentou escola de arte, mas que recebeu muitas instruções do amigo e por diversas vezes chegou a trabalhar com ele.

“Para pintar, sempre lembro do José Gregório que falava assim: a gente vê a imagem da Virgem Maria ou um santo, não como simples imagem ou simples obra de arte, nós vemos como de fato uma figura que nos recorda aquela pessoa que temos muita devoção, seja qual for e tratamos como aquilo que ela representa. Eu estou aqui pintando a imagem da Virgem Maria, eu sei que é gesso, uma imagem apenas, se cair vai quebrar, mas eu também que estou pintando uma imagem que representa uma pessoa muito importante. Então eu vou tomar muito cuidado com ela, como se eu estivesse fazendo para ela. Mesmo que não seja ela, mas eu fui ensinado a ter esse cuidado com aquilo que ela representa”, finalizou.

Imagem foi entronizada no primeiro dia da festa. (Foto: Willian Kinoshita)

A 21ª Festa de Nossa Senhora da Abadia começou no dia 3 de agosto e vai até o dia13, nos Altos da Avenida Afonso Pena, onde a Cidade do Natal deu espaço a Cidade de Maria, palco para dez dias de festa em honra a padroeira da arquidiocese de Campo Grande. A nova imagem foi entronizada durante a missa solene de abertura do evento a partir das 19h30.

Vivianne Nunes

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